Grifes
demais por preços de menos
Mais um competidor do segmento de vendas on-line se prepara para
entrar no mercado brasileiro. Desta vez, trata-se do Showroomprive, outlet
on-line de moda baseado na França, que tem um portfólio de 1.600 marcas e
registrou faturamento de € 250 milhões no ano passado.
Em busca de um possível sócio para o negócio, Thierry Petit, CEO e co fundador
da empresa, está no Brasil. Ele participa amanhã da feira internacional de
negócios digitais e Show, no Transamérica Expo Center. O executivo é o criador
do site de comparação de preços francês Toboo. Em entrevista ao Valor, Petit falou sobre as diferenças do Showroomprive em relação
aos seus concorrentes e como analisa o mercado de moda brasileiro.
“E-commerce de moda vai continuar a crescer no Brasil”, diz
Thierry Petit
Valor: Quais os planos para o Brasil?
Thierry Petit: Pretendemos estar entre os
cinco maiores e-commerces do Brasil, no médio prazo. Estamos muito interessados
no país e estudamos os cenários possíveis. Mesmo sendo um mercado importante é
preciso avaliar o custo de ter um sócio local e questões como abastecimento e
logística. Quando lançamos o Showroomprive em um país [além da França, eles
estão na Espanha, Itália, Holanda, Bélgica, em Portugal, no Reino Unido e, em
breve, na Polônia], passamos a oferecer a melhor seleção de marcas para esse
mercado. Isso significa selecionar grifes internacionais que são populares no
país em questão e oferecer marcas locais que os consumidores exigem. A chave
para alcançar o sucesso nesse segmento é oferecer uma mistura interessante de
marcas se adaptando à demanda. O site estreia com marcas francesas, italianas e
espanholas, que vão oferecer produtos com descontos entre 30% e 70%.
Valor: Como o senhor avalia o mercado
brasileiro de moda?
Petit: Houve um crescimento da moda on-line. Primeiro porque o
consumidor do país finalmente "abraçou" o e-commerce. Além disso, o Brasil tornou-se um mercado-chave para as marcas de
moda. Somente em 2012, cerca de 30 aterrissaram no país (grifo nosso). (Não) só São Paulo, mas também no Rio de Janeiro e em Brasília.
Atualmente, existe uma "fome" do consumidor por grifes. Junto a isso,
mais estilistas e marcas nacionais estão captando a atenção do público
internacional, graças a eventos como São Paulo Fashion Week e Fashion Rio. A
estabilidade política e o crescimento econômico também criam impacto positivo
na indústria local. Portanto, não há dúvida de que o e-commerce de moda vai
continuar a crescer no Brasil.
Valor: Qual o perfil do consumidor
brasileiro que compra via web?
Petit: Ele é muito semelhante ao consumidor da parte sul da Europa.
Cerca de 70% dos clientes são mulheres, com idades entre 29 e 45 anos, que são
mães, em sua maioria. Elas querem grandes marcas, para si e para a família, mas
não querem pagar muito. Também gostam de poder comprar a qualquer hora do dia e
de onde estiverem. Elas se identificam com uma nova forma de comprar, chamada
de "smart shopping" [compra inteligente].
Valor: Vocês cresceram 60% em vendas,
somente no ano anterior e já contam com 13 milhões de consumidores cadastrados
(ou "sócios", como são chamados). Qual o segredo para ter sucesso com
uma loja virtual?
Petit: A empresa é rentável desde o começo, em 2006, porque sempre nos
preocupamos com a saúde do negócio. Somos muito cuidadosos com os investimentos
que fazemos e preferimos um crescimento menor, porém seguro. Os fundadores do
site são também os seus acionistas, o que significa que têm controle sobre as
decisões estratégicas - o que não ocorre com outros sites, caso do Privalia,
sobre o qual os fundadores não têm mais controle. Além disso, em 2010, o
Showroomprive recebeu investimento do fundo Accel Partners, o que ajudou a
empresa a se internacionalizar.
Valor: Mas como sair na frente da
concorrência?
Petit: Conseguimos isso porque estamos totalmente integrados na
indústria da moda. Um erro típico de algumas empresas é pensar que, por saber
como fazer e-commerce, serão bem-sucedido no varejo de moda. Mas nesse segmento
de vendas privadas on-line [sites que exigem inscrição e vendem peças com
desconto], não basta olhar de fora tentando descobrir como obter lucro. Nossa
empresa tem uma relação de confiança com as marcas "premium". Nós
pensamos como elas, conhecemos suas necessidades, suas estratégias off-line e
on-line. E mais: nos preocupamos em saber quais são as tendências que o
consumidor está seguindo, como ele quer pagar ou receber o produto. Nosso foco
é a indústria da moda - mais de 70% dos produtos à venda estão ligados ao
vestuário e acessórios para mulheres, homens e crianças. São peças das coleções
passadas mais recentes.
Também comercializamos
cosméticos, artigos de beleza, objetos de decoração e alimentos, tudo com
desconto entre 30% a 70%. Além disso, investimos em serviços inovadores. Um
exemplo é o novo serviço de entrega expressa, que revolucionou as vendas
on-line na Europa. [O Showroomprive não é aberto a quem não é "sócio". Para se tornar um, basta se
inscrever. Quem é convidado a participar por outro "sócio", ganha
desconto na primeira compra].
Por Vanessa Barone | Para o Valor, de São Paulo